sábado, 5 de dezembro de 2009

SALMODIA EXCLUSIVA: Compartilhando algumas observações à luz de alguns princípios gerais da fé Cristã Reformada


Por Waldemir Magalhães Cruz

Após ler o livro “Salmodia exclusiva, uma defesa bíblica” do Pr. Brian M. Schwertley, compartilho algumas impressões sobre o mesmo:

Primeiramente, gostaria de advertir que estas simples observações são “meras observações” e não pretendem ser, sob hipótese alguma, uma refutação ao livro. Pois tal labuta não passaria de uma pretensão simples. Outrossim, é uma recomendação a alguns irmãos que porventura possam ficar com o coração sob suspense crendo que poderiam estar praticando um culto não bíblico e pecaminoso.

Acredito que o livro tem destinatário certo, isto é: as igrejas presbiterianas que adotam a Confissão de Fé de Westminster como exposição de doutrinas bíblicas e símbolo de fé. Certamente a mencionada confissão reformada estabelece que as igrejas que adotam-na estão autorizadas a cantar os Salmos e somente ou exclusivamente os Salmos.

Uma vez que as Igrejas Reformadas adotam as Três Formas de Unidade, e embora tenham um profundo apreço pelos Padrões de Westminster, não estão sob o Princípio Regulador Puritano do Culto em matéria de Adoração.

Portanto, a menos que o Pr. Brian queira aplicar o Princípio Regulador Puritano do Culto indistintamente a toda e qualquer igreja reformada, estas minhas observações devem ser ignoradas.

Eis algumas observações:

1. Parece que o livro faz uma análise incompleta do assunto pois elenca apenas duas correntes apresentando assim um dilema aparente: de um lado ele apresenta os que amam os salmos e mostram seu apreço quando cantam estes exclusivamente; e de outro lado os que se opõem a salmodia exclusiva que são necessariamente os que desprezam os Salmos. Entretanto, creio que tal dilema não existe pois há irmãos e igrejas que não defendem a salmodia exclusiva e não chegam a desprezar os Salmos. Portanto, ao que parece, não concordar com a salmodia exclusiva não significa necessariamente desprezar os Salmos;

2. Parece que o livro não é muito claro sobre qual ou quais os princípios que devem reger o louvor na igreja pois apresenta certos critérios que ora são apresentados como princípios bíblicos e ora como regras. O próprio Princípio Regulador, às vezes, parece ser aplicado como regra internacional de culto e não como um princípio puritano ou presbiteriano que se aplica às igrejas Presbiterianas. O entendimento geral da Reforma parece ser o de que a Bíblia fornece princípios que regem o culto ao Senhor, mas isso não significa uma padronização internacional de modo que cada ato cúltico de cada igreja que exista no mundo seja regido por este padrão. Por exemplo: há igrejas que no culto lêem os Dez Mandamentos, confessam o Credo Apostólico e outras não. Porém os princípios estão presentes: orações, pregação da Palavra, cânticos, ofertório, benção, saudação, etc., mas todos estes atos obedecendo aos princípios de estar o ato e o conteúdo em conformidade com as Escrituras e também de acordo com a simplicidade do Culto de modo que nem tudo que não seja necessariamente pecado seja introduzido na adoração. O livro ora fala de “composições humanas não-inspiradas” ou “hinos não-inspirados” (p. 10, etc.) como sendo o problema. Mas poderíamos perguntar: os Credos, as formas, as confissões enquanto composições humanas não-inspiradas têm lugar no culto? As igrejas que se utilizam de tais composições, no dizer de Brian, “abandonaram o Princípio Regulador ou sua prática de culto é não-autorizada e pecaminosa” (p. 39). Insistimos, parece que o pastor Brian quer aplicar o Princípio Regulador Puritano do Culto indistintamente. Mas, somente pode abandonar o Princípio Regulador Puritano do Culto as igrejas que o adotaram.

3. Parece que o Pr. Brian pretende transformar o mandamento de se “cantar os Salmos” em “cantar EXCLUSIVAMENTE os Salmos”. Para tanto, alega que há um livro de cântico oficial na Bíblia que é justamente a coleção de 150 Salmos. Ele sempre insiste que não podemos, portanto, cantar composições mesmo inspiradas no Culto que não seja EXCLUSIVAMENTE os Salmos e cantar qualquer coisa que não Salmos é sacrilégio. Quando, mencionamos que há outros “cânticos inspirados” nas Escrituras como o Cântico de Mirian, os Cânticos que o Apóstolo Paulo e outros dirigiram ao Senhor, o Pr. Brian parece criar uma classe inferior de “Cânticos ou composições inspiradas” ao dar a entender que tais “composições inspiradas” não fazem parte da coleção de 150 Salmos. Perguntamos: poderíamos cantar estes cânticos inspirados ou outras partes das Escrituras no Culto? Ou cometeríamos sacrilégio? Haveria os Salmos de ser “mais” inspirados do que outras partes das Escrituras? E quando acrescentamos que há para as igrejas reformadas outros elementos de culto que são “composições humanas não-inspiradas” como Credo Apostólico, leitura do Catecismo de Heidelberg, Confissão Belga, as Formas litúrgicas, as orações e a própria pregação, ele diz que o louvor é um elemento distinto. Mas o que significa esta distinção? Qual o problema finalmente, o fato de ser “composições humanas não-inspiradas”, não estar na coleção dos 150 Salmos, ou o que? A própria formulação: ou a coleção dos 150 Salmos ou nada, parece ser estabelecida de forma arbitrária. Parece que assim ele estabelece um Cânon dentro do Cânon sendo o primeiro superior ao segundo. Parece que a conclusão é que há uma supervalorização dos Salmos em detrimento de outras partes das Escrituras.

4. Podemos ver pelo menos três conclusões a que o Pr. Brian chega e quer nos fazer aceitar:

a) O Princípio Regulador Puritano do Culto e as inferências do Pr. Brian se aplicam indistintamente a toda igreja reformada e não somente presbiterianas;
b) A Bíblia manda cantar exclusivamente os Salmos e não composições humanas não-inspiradas e nem mesmo outras partes da Escrituras, pois doutra sorte praticam um culto “não-autorizado e pecaminoso”;
c) As igrejas que adotam a Salmodia Exclusiva amam os Salmos; as igrejas que não adotam desprezam os Salmos.

5. Quanto ao zelo do Pr. Brian, não temos dúvida. Aliás apreciamos muito suas lições que mostram que é um Mandamento cantar os Salmos. Apreciamos também suas exortações às igrejas que não cantam os Salmos mas somente hinos a que se arrependam desse pecado e passem a cantar os Salmos. Entretanto, não podemos deixar de mencionar nossa tristeza e discordância quanto ao severo julgamento que ele parece colocar sobre várias igrejas de Cristo que não adotam a Salmodia exclusiva.

Bem, certamente há muitas outras coisas que gostaríamos de levantar como perguntas, mas não dispomos de tempo no momento.

Mas gostaríamos de compartilhar alguns princípios que deveriam ser adotados por igrejas fiéis:

1. Cantar necessariamente os Salmos;
2. Cantar hinos que sejam congregacionais e tenham um conteúdo estritamente bíblico;
3. Considerar como igrejas fiéis àquelas que adotam exclusivamente os Salmos e orar caso estas venham a considerar igrejas que não cantam os Salmos exclusivamente como infiéis;

Finalmente advirto sobre o perigo de algumas pessoas usarem a posição da Salmodia Exclusiva como um martelo para bater na cabeça das demais igrejas que não adotam tal posição. Também devemos ser vigilantes para que as investidas de Satanás não nos acometam a ponto de desprezarmos irmãos e igrejas simplesmente para estabelecer uma posição de algumas igrejas fiéis. Que as lições do Pr. Brian não sejam usadas de modo a causar contendas e divisões entre crentes e igrejas fiéis. Vamos labutar juntos para deixar bem estabelecidas as principais marcas das igrejas verdadeiras: pregação fiel, administração correta dos sacramentos e disciplina cristã. Tenho certeza que estabelecidas estas marcas, estaremos muito mais perto uns dos outros e mais preparados para a discussão de pontos fundamentais de forma mais amadurecida e mais edificante sem corrermos riscos desnecessários de sermos pedras de tropeço uns para os outros.

Que Deus nos ajude!

Forte abraço!

Sobro o autor:
Waldemir Magalhães Cruz é um dos diretores do Centro de Literatura Reformada (CLIRE).

3 comentários:

Gaspar de Souza disse...

Querido irmão Waldemir. Congratulo pelas boas observações sobre o assunto em pauta, ajudando mais irmãos a entenderem que devemos cantar os Salmos, mas não somente eles.

As igrejas de Cristo devem reger os cânticos por meio das Escrituras. Acredito que é isto que tem faltado.

Forte abraço,

Em Cristo Jesus,

Gaspar

Anônimo disse...

Quando aplicamos o Principio Regulador rigidamente, o canto exclusivo dos Salmos é um elemento bíblico, a igreja cristã sempre cantou estes belos hinos inspirados sem auxilio instrumental, e as igrejas Reformadas seguiram seu exemplo até o final do Séc. XVIII! igrejas reformadas que não cantam exclusivamente os Salmos, não estão completamente reformadas!

Jardim Clonal disse...

Muito respeitosamente e humildemente me oponho a posição do Pr. Brian; tomo ao meu lado, nesta oposição, os Puritanos, os quais usualmente são identificados com a Salmodia Exclusiva. Digo isto pois é notável que os escritos destes antigos mestres (por exemplo na exposição dos 10 Mandamentos de Willian Perkins e em um comentário bíblico de Thomas Manton)não advogam a Salmodia Exclusiva a partir do Princípio Regulador. Encontramos, entretanto, esta forma de raciocínio nos escritos do Anglicano William Romaine. Em verdade, os Puritanos, em geral, se opunham a esta forma de elaboração lógica da Salmodia Exclusiva, uma vez que esta aplicação do Princípio Regulador o torna em uma Lei e Regra e o descaracteriza como Princípio. A justificativa Puritana para o cântico dos Salmos (assim como ocorre no Prefácio ao Saltério escrito por João Calvino) é a excelência dos Salmos e a conseqüente segurança que há em cantá-los.

Espero que esta pequena observação seja útil para evitar a potencial facciosidade de uma aplicação distorcida do Princípio Regulador, e para incitar aos Cristãos ao cântico voluntário e sincero dos Salmos.