quarta-feira, 26 de março de 2008

Pregação no Catecismo: Uma prática reformada antiga e edificante

Introdução:

Uma das coisas que chama muito a atenção na prática reformada é a exposição de sermões que têm como texto as divisões do Catecismo de Heidelberg. Essa prática muitas vezes não tem sido bem compreendida e bem recebida por muitos até mesmo nos meios reformados.
Este breve artigo tentará lançar luz sobre a prática reformada de se fazer pregações usando como texto as divisões do Catecismo de Heidelberg.
Este artigo tem a finalidade de fazer você compreender a origem, os motivos e o proveito desta prática tão antiga e edificante para as igrejas de Cristo que a adotaram.

Uma antiga prática reformada

A pregação no Catecismo é algo que está bem ligado à história das igrejas herdeiras da Reforma do Séc. XVI.
Os reformadores escreveram vários catecismos que foram usados para instrução, especialmente, dos jovens das suas igrejas.
O grande reformador João Calvino (1509-1564) tinha o costume de ensinar o catecismo na Igreja de Genebra (Suíça). Ele requeria dos pais trazerem seus filhos a estas aulas e a atenderem as instruções do Catecismo.
O Livro de Ordem da Igreja de Genebra estabeleceu que as instruções do Catecismo de Genebra deveriam ser feitas “na presença da Igreja”. Desse modo, a instrução no Catecismo passou a ser usada na pregação. Em Londres como em Heidelberg havia uma prática semelhante à de Genebra.
As Igrejas Reformadas da Holanda no Século XVI assimilaram essa prática de outras igrejas reformadas e luteranas do exterior, que já praticavam a exposição do Catecismo em seus cultos.
Na Holanda as pregações no Catecismo tiveram início no ano de 1566. O Rev. Pedro Gabriel foi quem começou pregando a cada domingo, no culto da tarde, o Catecismo para sua congregação em Amsterdã.
Com o passar do tempo essa prática foi sendo estabelecida oficialmente através dos sínodos de Dort nos anos de 1574 e 1578. Contudo, é no sínodo de Gravenhage no ano de 1586 que encontramos, no Art. 61 do seu Livro de Ordem (Regimento), a primeira decisão sendo formulada e definida como uso oficial, para a prática de pregações no Catecismo dentro das Igrejas Reformadas na Holanda.
Porém, com o passar do tempo e pelo advento do arminianismo na Holanda, a prática de expor o Catecismo foi sendo negligenciada e combatida. Por isso, este assunto foi colocado também como ponto de pauta no Grande Sínodo de Dort do ano de 1618-19.
A decisão do Grande Sínodo de Dort de 1618-19 foi reiterar a decisão do sínodo em Gravenhage de 1586 e assim resguardar o uso das pregações no Catecismo para o bem das igrejas. Isto pode ser visto no Art. 68 do Regimento aprovado pelo Grande Sínodo de Dort, que praticamente é uma repetição do artigo 61 do Livro de Ordem adotado em 1586.
A prática de pregações no Catecismo no Brasil também não é nova. Nos anos da dominação holandesa (1630-1654), o Nordeste do Brasil conheceu a prática da pregação no Catecismo por meio do trabalho missionário das Igrejas Reformadas da Holanda em solo brasileiro.
As igrejas fruto dessa obra missionária no Brasil guardavam o Regimento adotado pelo Sínodo de Dort nos anos de 1618-19. Isto garantiu que os crentes desse período áureo de nossa história pudessem ser edificados com a exposição das consoladoras doutrinas bíblicas ensinadas no Catecismo de Heidelberg.
Estes dados históricos revelam que esta prática das Igrejas Reformadas hoje, tanto no Brasil como em outros lugares do mundo, não é uma invenção moderna, mas uma prática antiga que tem suas raízes na época da Grande Reforma Protestante do Século XVI.

A Prática de pregações no Catecismo é edificante

O Catecismo de Heidelberg é um sumário sistemático e prático do plano de salvação revelado na Escritura. Este sumário é apresentado em três grandes divisões, com 52 subdivisões denominadas como Dia do Senhor e constituídas de 129 perguntas e respostas.
Essas três grandes divisões do Catecismo tem os seguintes títulos: Nossos Pecados e Miséria (Dia do Senhor 2-4), Nossa Salvação (Dia do Senhor 5-31) e Nossa Gratidão (Dia do Senhor 32). Estas divisões seguem a mesma estrutura da Carta do Apóstolo Paulo Aos Romanos que são as seguintes:

Nosso Pecado e Miséria (Rm 1-3:20);
Nossa Salvação (Rm 3.21-11.36);
Nossa Gratidão (Rm 12-16);

O alvo do Príncipe Frederico III, o Piedoso (1516-1576), quando encarregou a Zacarias Ursino (1534-1583) e Gaspar Oleviano (1536-1587) de escrevem o Catecismo de Hedelberg foi que este catecismo servisse para instrução dos jovens e para orientação de pastores e de professores.
Os autores do Catecismo de Heidelberg queriam que ele fosse “um eco da Escritura”. Este desejo é evidenciado na grande quantidade de passagens bíblicas citadas dentro do texto do Catecismo e nas bases bíblicas expostas no rodapé das respostas.
Também parece que este desejo tenha norteado os autores do Catecismo de Heidelberg a apresentar o documento em forma de um catecismo (perguntas e respostas) e não de uma confissão como a Confissão Belga ou a Confissão de Westminster adotada pelas Igrejas Presbiterianas.
A palavra catecismo vem de uma palavra grega (katecheo) que dá o sentido de “soar em direção a”, “falar a alguém com o desejo de receber uma resposta de volta como um eco”.
Na maioria das bíblias em língua portuguesa a palavra “katecheo” normalmente é traduzida como “informar” (Lc. 1.4; At 21.21,24), “instruir”, “ensinar” (At 18.25; Rm 2.18; 1 Co 14.19). E podemos ver em Gl 6.6 as palavras “catequizado” e “catequizador” juntas, sendo traduzidas como “aqueles que estão sendo instruídos” e “aquele que o instrui”.
Estes detalhes mostram que o sentimento, o conteúdo e a forma do Catecismo de Heidelberg atingiu um dos seus alvos básicos que era ser um “eco da Escritura”. Um eco daquilo que o Espírito Santo revela na Escritura sobre a Salvação que Deus em Cristo opera no homem caído.
Quando uma igreja pratica a pregação do Catecismo ela está garantindo que o povo de Deus seja instruído (catequizado) de modo sistemático na Doutrina Bíblica da Salvação durante todo o ano. Esta prática enriquece a Igreja de Cristo com a doutrina da Palavra de Deus e a protege de heresias.
Os arminianos do Séc. XVII sabiam do edificante valor da pregação do Catecismo para a Igreja na Holanda. Por isso, não foi à toa que eles começaram a criticar e lutar contra a pregação no Catecismo.
Os arminianos acusavam as Igrejas Reformadas de praticarem uma pregação não bíblica, pois o Catecismo é um documento feito por homens. Eles diziam que alguém deveria pregar sermões somente da Bíblia, a Palavra de Deus, e não de um documento feito por um homem. Este argumento aparentemente parece muito piedoso, mas não é.
A malícia travestida de piedade dos arminianos conseguiu influenciar as autoridades de sua época e foi a causa do enfraquecimento da pregação no Catecismo e do serviço de culto nas tardes dos domingos na Holanda.
O Catecismo de Heidelberg não é a Palavra de Deus, mas é um sumário fiel da Palavra de Deus. Portanto, devemos entender que quando um Ministro da Palavra prepara um sermão no Catecismo ele não toma o texto do catecismo como Palavra de Deus, mas toma a doutrina da Palavra de Deus exposta na divisão do Catecismo que será pregada à sua congregação.
Desta forma quando um Ministro do Evangelho prega sermões no Catecismo ele está proclamando plenamente as Boas Novas de Jesus Cristo e expondo a verdadeira Doutrina da Sagrada Escritura.
As Igrejas Reformadas nos seus regimentos desde da época da Reforma do Século XVI têm deixado bem claro seu entendimento quanto à natureza do conteúdo das pregações no Catecismo.
O Regimento das Igrejas Reformadas do Brasil, por exemplo, cuja raízes estão no Livro de Ordem aprovado pelo Grande Sínodo de Dort diz no seu Artigo 42, “Pregação Sobre o Catecismo”:

“O conselho cuidará de que, via de regra, a doutrina da palavra de Deus, resumida no catecismo de Heidelberg, seja ensinada uma vez a cada domingo”.

As Igrejas Reformadas na História sempre tiveram o cuidado de dar ênfase à pregação da “doutrina da Palavra de Deus”, resumida no Catecismo de Heidelberg e nunca deram ênfase à pregação de um documento humano.
Além disto, as Igrejas Reformadas confessam no Art. 7 da Confissão Belga que: “Não nos é permitido considerar quaisquer escritos de homens, por mais santos que tenham sido, como igual valor ao das Escrituras Divinas”.
Os arminianos já conheciam os artigos do Livro de Ordem Gravenhage e da Confissão Belga, mas mesmo assim, com sua falsa piedade tentaram camuflar o seu real interesse: afastar dos púlpitos das igrejas de Cristo na Holanda a pregação do Catecismo. Assim fazendo eles estariam eliminando mais um meio das Igrejas receberem o ensino bíblico da Salvação. Devemos lembrar que um dos objetivos do arminianismo era perverter a doutrina da salvação ensinada na Escritura.
O Grande Sínodo de Dort de 1618-19, para o bem das Igrejas na Holanda, frustrou o intento dos arminianos quando manteve a edificante prática da pregação no Catecismo, que foi sendo gradualmente aceitada como um costume.

Conclusão:

Esperamos que este artigo tenha trazido mais esclarecimento sobre a antiga e edificante prática reformada de pregações no Catecismo. Não apenas isso, mas fazendo você amar e aceitar essa boa prática.
No nosso amado país temos muita necessidade de sermos instruídos e de instruir outros sobre a Obra Salvadora de Cristo e as conseqüências dessa Obra em nossas vidas.
O Brasil está cheio de ensino equivocado e herético sobre a Miséria natural do homem em Adão, sobre como podemos ser salvos dessa miséria e da ira de Deus e como podemos viver em santidade de modo grato a Deus pela salvação graciosa em Cristo.
A pregação no Catecismo será mais um meio para manter a igreja bem instruída sobre essas doutrinas maravilhosas da Palavra de Deus, para proteger a igreja das heresias e retirar muitos dos enganos e também ser um eficaz instrumento na evangelização daqueles que estão perdidos em seus pecados.
A pregação do Catecismo na História tem mostrado a sua eficácia nessas áreas. Portanto, devemos orar para que Deus continue a usar esse bom instrumento para a Glória de Cristo e para o bem de Sua amada Noiva, no Brasil e no mundo.

Rev. Adriano Gama




Bibliografia pesquisada:

As Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas: Confissão Belga, Catecismo de Heidelberg e Cânones de Dort – CLIRE: Recife

Beeke, Joel R. – Trazendo O Evangelho aos Filhos da Aliança: Em Dependência do Espírito Santo – Série Orientação Familiar – Guia Nº 1 – Edições O Perigrino: Campinas (SP) Brasil - 2003

Beeke, Joel R. & Ferguson, Sinclair B. – Harmonia das Confissões Reformadas – Cultura Cristã: São Paulo.

Church Order of the Canadian Reformed Churches

Degier, K. De – Explanation of The Church Order of Dordt: In Questions and Answers – Netherlands Reformed Book and Publishing Committee - Grand Rapids – Michigan - USA

Dellen, Idzerd Van & Monsma, Martin – The Church Order Commentary – Zondervan Publishing House – Grand Rapids – Michigan – USA

Gingrich, F. Wilbur & Danker, Frederick W. – Léxico do N.T. Grego/Português – Vida Nova: São Paulo

Guerra, Manuel – Diccionario Morfologico Del Nuevo Testamento – Ediciones Adecoa: Burgos, España - 1979

Schalkwijk, Frans Leonard – Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654) – Cultura Cristã: São Paulo

Stam, Clarence – Living in the joy of faith – Inheritance Publications: Winnipeg – Canada


2 comentários:

Rachel disse...

Pastor Adriano,

seu artigo foi muito edificante, objetivo e esclarecedor. Agradeço a Deus pelas decisões tomadas no Sínodo de Dort e pelo Catecismo de Heidelberg.
Verdadeiramente, o catecismo soa em direção a nossos corações. Louvamos a Deus pelo eco de Seu Espírito que pode ser encontrado na pregação reformada com o catecismo.
Grata, Rachel Freitas

Felipe(soldado de cristo) disse...

Bom, na minha opinião os membros devem ser catequizados. As igrejas devem doutrina as pessoas com base nos catecismos reformados, pois são uma exposição sistemática das Escrituras.E é importante sempre catequizar mostrando os versículos que servem de base para as afirmações

Mas acho que no culto público( com exerção do culto de doutrina, que visa doutrina as pessoas)a pregação deve ser somente baseada em trechos bíblicos.